8. ARTES E ESPETCULOS 7.11.12

1. FOTOGRAFIA  A COR DO PASSADO
2. CINEMA COMPETNCIA SE ADQUIRE
3. CINEMA  ALUSO, CITAO, REPETIO
4. LIVROS  DEIXE-SE ENGANAR
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  O RESTO  O RESTO

1. FOTOGRAFIA  A COR DO PASSADO
Uma mostra em Berlim apresenta a obra de Sergei Prokudin-Gorski, que fotografou a Rssia nos anos anteriores  revoluo comunista.
BRUNO MEIER

Qumico de formao e apaixonado por fotografia, o russo Sergei Prokudin-Gorski (1863-1944) abraou, nos primeiros anos do sculo XX, o que se poderia chamar de misso antropolgico-patritica. A bordo de um trem, queria ir documentando o imprio russo para apresentar a seus contemporneos a beleza, riqueza e magnitude de seu pas. Construiu um vasto painel de personagens, situaes e paisagens de uma Rssia rural e remota  que, pouco depois, seria varrida violentamente pelo comunismo. As fotos, alm disso, tinham uma novidade tremenda em relao ao cinza-padro do perodo: eram coloridas. Gorski no inventou a fotografia em cor  esse crdito  do fsico ingls James Clerk Maxwell, em 1861 , mas foi um dos primeiros a conferir a ela relevncia artstica e profundidade histrica. Fixados em placas de vidro e exibidos em grandes telas, seus registros causaram estardalhao. As projees tornaram-se celebrados eventos da aristocracia russa e despertaram o interesse de um grande entusiasta da fotografia  o czar Nicolau II. Maravilhado com as imagens radiantes, o imperador recrutou os servios de Gorski em 1909. No decorrer dos anos seguintes, com generosos fundos imperiais  at ali Gorski havia recorrido  polpuda fortuna de sua famlia , a Rssia seria fotografada do Mar Bltico ao Oceano Pacfico. Um vago de trem foi equipado pelo Ministrio dos Transportes com um quarto escuro para a revelao dos negativos, e Gorski teria passe livre para todos os rinces de seu pas. Cedidas pela Biblioteca do Congresso americano, detentora dos negativos e das fotos impressas desde 1948, vrias das imagens desse perodo prspero do fotgrafo esto sendo exibidas pela primeira vez de forma extensiva no projeto Nostalgia, com uma exposio em Berlim e um livro comercializado pelo site da editora alem Gestalten. Trata-se do melhor panorama de imagens da Rssia pr-revoluo.
     Sergei Prokudin-Gorski  ainda pouco lembrado: o projeto do czar teve de ser abortado por causa da I Guerra, e o fotgrafo foi obrigado a se exilar com a mulher e os filhos em Paris, onde morreu, em 1944. Ele criou sua prpria tcnica para registrar as cores, embora o princpio fosse similar ao desenvolvido por Maxwell. Postados diante de uma cmera que batia fotos em sequncia rpida, os cidados que serviam de modelo tinham de ficar imveis por vrios segundos at Gorski registrar a pose com trs filtros diferentes  um vermelho, um verde e um azul. As trs chapas monocromticas eram ento superpostas e unidas por meio de uma luz especial, que reconstitua a cena em suas cores originais. Em 1948, adicionamos mais de 600.000 imagens s nossas colees, mas destacamos o trabalho de Gorski por sua raridade e valor histrico, disse a VEJA Helena Zinkham, chefe da diviso de impresses e fotografias da Biblioteca do Congresso, em Washington, que adquiriu 1901 placas de vidro e mais de 2400 fotos impressas dos filhos do fotgrafo. A fotografia colorida faz o passado parecer mais real e relevante, completa Helena.
     No vasto acervo documental que Gorski juntou em sua viagem esto reveladas uma poca e a identidade de um povo. As mulheres em uma plantao de ch na Gergia, o professor com garotos judeus em Samarcanda, no Uzbequisto  nenhum dos personagens de Gorski imaginava a transformao que eles estavam prestes a enfrentar com a vitria dos bolcheviques sobre o czarismo. Cem anos depois de Gorsici realizar seu magnfico trabalho, muitos rios, lagos e cachoeiras continuam intactos na natureza, e uma ponte ou outra permanece no cenrio. A paisagem humana, porm, mudou inteiramente por efeito da modernizao forada da Rssia e da integrao truculenta de todas as regies adjacentes  URSS. Os registros vibrantes de Gorski so uma janela para um mundo que se perdeu. Harold Leich, especialista em Rssia da Biblioteca do Congresso, lembra que tambm muitas das edificaes vistas nas fotos foram destrudas na era sovitica ou transformadas em espaos com fins completamente diferentes. Mosteiros viravam campos de concentrao ou prises, por causa de suas paredes altas e grossas, lembra. O sculo, enfim, logo seria cinza.

HUMILDES E PODEROSOS - O patriarca e sua famlia de colonos em Grufovka ( esq.) e Alim Khan (1880-1944), emir de Bulchara, no Uzbequisto, em 1911 ( dir.): de camponeses no trabalho a mandachuvas e tambm intelectuais, como Leon Tolstoi, todos estavam na mira do fotgrafo.

VERMELHO, VERDE E AZUL  Garotas oferecem frutas na rea rural de Kirillov, em 1909, e dois prisioneiros acorrentados nos rinces russos, em imagem feita em data desconhecida, entre 1905 e 1915: os focalizados precisavam ficar imveis por vrios segundos at que Gorski os registrasse com trs filtros diferentes.

NEM TODO PASSADO  PRETO E BRANCO  Famlia camponesa em paisagem vangoghiana, em 1909 (acima), e a concretagem de uma barragem perto de Beloomut, em 1912 ( esq.): registros coloridos anos antes do fim trgico da famlia real de Nicolau II e da tomada de poder pelos bolcheviques, que tingiria de cinza a vida sovitica.


2. CINEMA COMPETNCIA SE ADQUIRE
 o que prova Channing Tatum em uma atuao
surpreendente em Magic Mike, dirigido por Steven Soderbergh e inspirado no passado do ator como stripper.
ISABELA BOSCOV

     No palco, Channing Tatum arranca o colete  e, na plateia, as figurantes endoidecem, j pensando nas outras peas que sero arrancadas at Tatum ficar quase nu, mal e mal protegido por uma sunga minscula. As figurantes gritam no porque ensaiaram para tal, mas porque, recrutadas pelo diretor Steven Soderbergh por ali mesmo, esto de fato adorando o show. Algumas depois vo manifestar a ele certa preocupao: o que seus namorados e maridos vo achar desse entusiasmo se o trecho for includo no corte final? Soderbergh, ao contrrio da maioria dos cineastas, no fica retirado das cenas que est rodando, acompanhando-as por um monitor,  margem da rea da ao. Ele mesmo ajeita a luz e opera a cmera, e esse contato imediato com a matria-prima tem se traduzido num dom incomum para transferir a vibrao do ser para a tela. Entre todas as habilidades que um diretor poderia ter, essa  a que mais vem a calhar em Magic Mike (Estados Unidos, 2012), j em cartaz no pas. Batendo papo entre uma e outra pausa nas filmagens de A Toda Prova, no ano passado, Tatum, que tinha um pequeno papel naquele filme, contou a Soderbergh sobre seu passado como stripper em clubes para mulheres. tima ideia para um roteiro, decidiu o diretor, que gosta de encontr-las assim, conforme o acaso dita. Tatum escreveu um argumento e Soderbergh o transformou numa das maiores bilheterias de sua carreira, a qual inclui uma Palma de Ouro em Cannes (por sexo, mentiras e videotape) e um Oscar de direo (por Traffic).
     Fez mais ainda: provou que Tatum, que vinha fazendo uma carreira lucrativa com papis que se aproveitavam de sua beleza e musculatura e de nada mais, no surpreendeu por acidente na sua pequena participao em Inimigos Pblicos, de Michael Mann, e no recente Anjos da Lei. Como seu personagem aqui, Tatum  um desses sujeitos que no se abalam com impresses superficiais sobre si, trabalham muito, aprendem rpido e no desistem at ter aprendido. Com sua meiguice, carisma e marotagem, Tatum faz do filme o que ele   e, embora o restante do elenco se empenhe,  tambm o nico deles que de falo convence como stripper. (O strip-tease masculino, ao contrrio do feminino, atende s fantasias especficas de seu pblico com muito mais humor. teatralidade, dana e provocao do que os homens costumam requerer das mulheres nesse tipo de estabelecimento.) Magic Mike, previsivelmente, arrastou multides de mulheres, e de gays, aos cinemas: feito por microscpicos 7 milhes de dlares, j totaliza uma renda mundial de quase 160 milhes.
     Mas enganam-se os heterossexuais que forem concluindo que ver atores como Tatum, Matthew McConaughey. Joe Manganiello (de True Blood), Matt Bomer (de White Collar) e Alex Pettyfer (de A Fera) tirando a roupa no  programa para eles. Os bons filmes de Soderbergh  e este  um dos timos  tm sempre um mote principal, mas nunca uma s ideia, muito menos uma nica preocupao. De forma que aqui,  euforia que o diretor conjura no palco e aos detalhes reveladores da vida dos strippers (as depilaes, os figurinos comicamente apelativos, os comprimidos ilegais que circulam pelos camarins, os truques para esticar as notas enfiadas pela clientela na sunga), somam-se um interessante retrato ntimo de um protagonista, um apanhado sobre o sentimento de tudo poder mas pouco saber que marca o incio da juventude e tambm uma grande quantidade de diverso essencialmente masculina: tentando explicar  irm de seu mais novo recruta, Adam (Alex Pettyfer), o que torna a profisso to atraente para o garoto. Mike enumera  balada, dinheiro fcil, mulheres. O que, aos 19 anos, pode ser mais sedutor?
     O prprio Mike j deixou os 19 anos bem para trs. E, embora goste do striptease, esta preso  iluso de que ele  um recurso passageiro, uma plataforma a partir da qual ele vai realizar seus incontveis planos. De dia, Mike trabalha na construo civil e turbina automveis, alm de desenhar mveis. De noite, tira a roupa, vira Magic Mike e finge que acredita que Dallas (McConaughey), o dono do clube, vai dar a ele participao nos negcios. Nos intervalos entre as vrias atividades, tenta ganhar Brooke (Cody Horn), a irm de Adam. Mas fica surpreso  agradavelmente surpreso, em um lance inteligente de construo do personagem  ao descobrir que ela no est caindo na sua conversa porque no o leva a srio. Gosta dele  e como poderia no gostar? , mas no tanto que queira embarcar na fantasia de que ser stripper  um trabalho como qualquer outro e no traz uma certa carga de humilhao pessoal. Brooke v o que Mike no est vendo: que vai passar dos 40 raspando a perna (e outras coisas mais) e rebolando. Mike vai ter de crescer. E se crescer no rumo certo poder at, como Tatum, tirar timo proveito da experincia.

QUEM DIRIA!
Channing Tatum no  o nico caso de personalidade de sucesso que, com trabalho duro e disposio para o risco, se torna tambm exemplo de prestgio.

Astro pop de sucesso colossal desde a adolescncia, Justin Timberlake, entretanto, gozava do mesmo tanto de prestgio crtico que Justin Bieber goza hoje  zero. Em meados da dcada passada, porm, ele comeou a mostrar que sua fora no era um milagre do marketing: converteu-se em um compositor de muito respeito com Sexy/Back e provou-se tambm um intrprete de talento em Alpha Dog e em A Rede Social, no papel de Sean Parker, o inventor do Napster  pelo qual a Academia lhe ficou devendo uma indicao ao Oscar.

O dom cmico de Jonah Hill, revelado na comdia Superbad   Hoje, nunca esteve em questo: a dvida, como sempre nesses casos,  se ele seria capaz de articular seu talento tambm em personagens dramticos. A resposta veio clara em O Homem que Mudou o Jogo: no papel de um matemtico cujos clculos alteram as regras de contratao de jogadores de beisebol, Hill roubou a cena de Brad Pitt com uma atuao minuciosa, ponderada e cheia de sentimento.

Tido apenas como um forto de carisma acima da mdia  frente da banda de rap Marky Mark and the Funky Bunch e em ousados anncios das cuecas Calvin Klein, em 1997 Mark Wahlberg superou todas as expectativas a seu respeito no papel de um ingnuo astro porn em Boogie Nights. Hoje, alm de ter slidos crditos como ator,  um muito atuante produtor de cinema e de sries como Entourage, In Treatment e Boardwalk Empire.


3. CINEMA  ALUSO, CITAO, REPETIO
Em Frankenweenie, Tim Burton cria um mundo gtico, mas fofo, em que tudo faz referncia a algum filme anterior.

     Em meio a um frenesi de bichos mortos ressuscitados por meio de choques eltricos, aparece uma criatura colossal, uma cruza de Tartaruga Ninja com Godzilla que atende pelo nome de Shelley, referncia  escritora inglesa Mary Shelley (1797-1851). Vale perguntar se ter seu nome atribudo a uma estpida tartaruga gigante conta como uma homenagem  autora de Frankenstein. Pouco importa: tudo em Frankenweenie (Estados Unidos, 2012) , afinal, homenagem, citao, pardia, aluso. Em cartaz no pas desde sexta-feira, a animao de Tim Burton , do incio ao fim, divertida mas derivativa. Parece uma tentativa de fazer com o universo do terror o que Shrek fez com o mundo dos contos de fadas. Se bem que a matriz mais evidente do filme no esteja nem na literatura gtica nem nas grosserias do ogro: no seu aspecto mais cativante  a relao de um menino solitrio com um bichinho grotesco, porm fiel, Frankenweenie  uma verso soturna de E.T  O Extraterrestre.
     Burton  muitas vezes mais designer do que cineasta, e Frankenweenie  um primor de direo de arte: feita com bonecos de stop motion (como no mais bem-sucedido A Noiva Cadver), a animao  toda em preto e branco. Roupas, carros, decorao de interiores sugerem que a ao tem lugar nos anos 50, e tudo se passa em um subrbio que lembra de longe a vizinhana certinha de Edward Mos de Tesoura.  nesse mundo de padronizao sombria que o menino Victor Frankenstein perde Sparky, seu amado cozinho  e o atropelamento, mais sugerido do que mostrado,  um clmax emocional que o resto do filme no consegue reeditar. Em uma noite de tempestade, ele submete o corpo do cachorro, reconstitudo com costuras rudimentares, a um choque eltrico poderoso, que traz o simptico bicho de volta  vida. Os invejosos colegas de Victor acabam descobrindo seu feito e tentam repeti-lo, com resultados desastrosos como Shelley, alm de uma destrutiva tribo de Kikos Marinhos (derivados de Gremlins) e uma grotesca mistura de gato com morcego. Perpassa pelo filme um senso de humor mrbido que, no entanto, no abandona o padro Disney de fofura  e tal combinao, como um monstro costurado de pedaos de cadver, nem sempre  bem-ajambrada.
     Aluso, e citao, e repetio, e repetio: tal como no fim de Edward Mos de Tesoura, a ao acaba convergindo para o alto de uma colina, onde o velho moinho de vento da cidade  no por acaso chamada de Nova Holanda   consumido em um incndio, e Victor e sua amiguinha Elsa van Helsing quase so mortos por um monstro, e pelo incndio, e depois de novo pelo monstro. Toda essa agitao sem sentido esvazia a emoo do final entre Victor e Sparky. A qual, to diferente da despedida de E. T.. soa irremediavelmente falsa.
JERNIMO TEIXEIRA


4. LIVROS  DEIXE-SE ENGANAR
 o convite que o japons Haruki Murakami faz ao leitor no portentoso 1Q84, romance no qual um escritor aspirante e uma assassina se perdem em realidades paralelas.
JERNIMO TEIXEIRA

     Logo no primeiro captulo, um motorista de txi faz a sua passageira uma advertncia que pouco tem a ver com trnsito: No se deixe enganar pelas aparncias. A realidade  sempre nica. Nas pginas seguintes, no entanto, a realidade, longe de ser nica, se desdobra em planos alternativos, entre os quais se perde Aomame, a passageira a quem se destinava o esquisito conselho do taxista. Professora de educao fsica e defesa pessoal em uma academia de Tquio, ela descobre que, depois de abandonar o txi parado em um congestionamento monstro para deixar a via expressa por uma insuspeita escada de emergncia, o mundo passou por alteraes a princpio sutis mudaram o uniforme e as armas usadas pelos policiais  e logo em seguida portentosas  aparecem duas luas no cu. Essa realidade distorcida  batizada por Aomame com a expresso que serve de ttulo ao delirante romance do japons Haruki Murakami, cuja primeira parte est chegando s livrarias brasileiras: 1Q84 (traduo de Lica Hashimoto; Alfaguara: 432 pginas; 49,90 reais).
     Fenmeno no Japo, com mais de 4 milhes de cpias vendidas, o livro consolida o escritor de 63 anos como o nome mais celebrado da literatura japonesa contempornea, ainda que Murakami seja, desde sempre, uma figura meio deslocada na literatura de seu pas  e, a rigor, na literatura mundial (deste mundo, pelo menos). Tal como no Japo, onde o romance foi publicado em trs tomos ao longo de dois anos, aqui 1Q84 chega s livrarias em prestaes: a parte 2 est prevista para maro e o ltimo livro s para novembro de 2013.
     Em livros de inconteste exuberncia imaginativa como Caando Carneiros e Kafka  Beira-Mar, Murakami promoveu uma mistura ousada, ainda que nem sempre coesa, de policial noir, fico cientfica e surrealismo. Saudada por muitos crticos como sua obra-prima, 1Q84 acrescenta a essa conjugao referncias obscuras  msica erudita (a Sinfonietta do compositor checo Leos Jancek tem certa importncia na trama), especulaes metafsicas e indecisos tons de crnica poltica. O ttulo, bem a propsito,  um trocadilho bilngue com 1984, ano em que tem lugar a ao do romance: a letra Q, em ingls, soa como o nmero 9, em japons. Mas a referncia bvia  distopia totalitria de George Orwell pode ser enganosa. No, nem o Japo de 1984 nem o de 1Q84 so ditaduras. Mas a agitao poltica radical dos anos 60  que j fazia um discreto rudo de fundo no intimista Norwegian Wood, uma das obras mais conhecidas de Murakami  conflui para o enredo fantstico do romance. No centro dos abalos que conduziram  bifurcao do universo est um grupo de esquerda meio maoista que monta uma comuna rural. O movimento poltico, porm, acaba convertendo-se em seita religiosa. E  dessa seita que escapa a bela e misteriosa Fukaeri. Essa adolescente dislxica  autora de Crislida de Ar livro que, apesar de mal redigido, fascina um editor pouco escrupuloso. Tengo, um professor de matemtica que aspira a ser romancista,  contratado para reescrever a obra, convertendo o texto disforme em literatura. Tudo indica, porm, que os aparentes elementos de fico fantstica do livro  como o ameaador Povo Pequenino  sejam, na verdade, relatos verdicos do que acontecia nos limites fechados da seita.
     O romance alterna captulos dedicados a Tengo e a Aomame, dois irredutveis solitrios (e esquecamos de mencionar que Aomame, alm de personal trainer,  uma assassina profissional, uma vingadora dedicada a matar homens que espancam mulheres). Os dois tiveram um breve mas emocionante encontro na infncia, depois se separaram. Sim, h uma doce ingenuidade romntica sob o enredo onrico: as mais de 1000 pginas da obra completa protelam o reencontro dos dois heris.
     Nem tudo em Murakami  exuberncia e delrio. H momentos de realismo minudente, como a triste trajetria do pai de Tengo, cobrador de porta em porta do servio de radiodifuso japons que arrastava o filho pequeno na sua rota de trabalho. E h trivialidades desnecessrias: o dilogo em que Aomame e uma amiga conversam sobre o uso de preservativos em uma sesso de sexo grupal soa como uma campanha de Carnaval do Ministrio da Sade  o que, convenhamos, no tem lugar no meio de um romance fantstico. Mesmo assim. 1Q84 faz por merecer este que  um dos mais convencionais adjetivos empregados em resenhas: envolvente. Haruki Murakami tem esse poder de, com vinte ou trinta pginas, submergir o leitor em uma realidade outra, aparentada da realidade comezinha do dia a dia, porm mais intensa e estranha. E com duas luas no cu.


5. VEJA RECOMENDA
DVD
TRABALHAR CANSA (BRASIL, 2011. LUME)
 Otvio (o magnfico Marat Descartes) acabou de perder o emprego, mas Helena (Helena Albergaria) decide assim mesmo investir as economias familiares na compra de um mercadinho de bairro: embora vazio de mercadorias, ele est com as instalaes completas, tal e qual os donos anteriores o deixaram. Mas,  evidente falta de vocao de Helena para o trato com os funcionrios e os fregueses, outros problemas se vm juntar  uma mancha que sempre volta  parede, poas malcheirosas, uma descoberta desconcertante atrs dos tijolos, sombras de no se sabe o qu. Esta estrela originalssima na direo de longa-metragem da dupla Marcos Dutra e Juliana Rojas combina uma reviso de um gnero clssico, o filme de casa assombrada, com a crnica urbana, no deslindar da presso financeira que aos poucos vai transtornando (talvez literalmente) Otvio e Helena. No obstante suas qualidades (entre as quais est a de dividir radicalmente as opinies da plateia). Trabalhar Cansa foi lanado no circuito de maneira desastrada e nunca chegou a encontrar seu pblico  o qual, agora, faz um favor a si mesmo ao conferir o filme em DVD.

DOWNTON ABBEY  A PRIMEIRA TEMPORADA (INGLATERRA, 2010. UNIVERSAL)
 O desafio est lanado: tente assistir ao primeiro episdio de Downton Abbey e, sentindo os sintomas de abstinncia j no momento em que os crditos finais comearem a subir, no emend-lo de cara no segundo captulo  e talvez no terceiro, e assim vai. Passada nos anos que antecedem a I Guerra (o pontap inicial para o enredo  dado com o naufrgio do Titanic, em 1912), a minissrie criada por Julian Fellowes causou vcio de tal gravidade entre o pblico ingls e americano que, para aplac-lo, teve de virar srie de fato: a terceira temporada termina de ir ao ar neste domingo na Inglaterra. O que, at o especial de Natal e a prxima temporada, deixar a audincia em suspense sobre os destinos de Lord Robert (Hugh Boneville, em demonstrao pica de que homens rechonchudos e de meia-idade podem ser francamente irresistveis), suas trs filhas, sua me mexeriqueira (Maggie Smith, 78 anos, e tambm ela irresistvel) e, acima de tudo, a propriedade que d ttulo ao programa. O belssimo castelo, onde uma multido de empregados se apinha para cuidar da famlia aristocrtica e acompanhar sua vida como se fosse uma novela,  um personagem por seu prprio direito.

LIVRO
OBLMOV, DE IVAN GONTCHARV (TRADUO DE RUBENS FIGUEIREDO; COSACNAIFY; 736 PGINAS; 119 REAIS)
 Na primeira pgina deste clssico russo que agora ganha nova e cuidada traduo, o personagem-ttulo surge emblematicamente deitado na cama, em seu apartamento em So Petersburgo, com o rosto e at as pregas do roupo tomados pela luz neutra da indiferena. Esse ser seu estado fundamental ao longo do livro. Representante de uma classe de proprietrios rurais que perdeu a sintonia com a histria  o romance foi publicado em 1859, dois anos antes da abolio da servido na Rssia , Oblmov, embora na casa dos 30 anos,  um ancio nato, alm de um irremedivel indolente. Como seu antpoda, aparece o empreendedor Stoltz. Ivan Gontcharv (1812-1891) no ombreia com o contemporneo Ggol ou com os sucessores Dostoievski e Tolstoi. Funcionrio pblico, foi autor de uma obra reduzida, e no fim da vida alimentava ressentimentos contra autores de maior consagrao, como Turgueniev. Mas sua grande criao caricatural deixou marcas at na lngua russa: oblomovismo, termo consagrado em um ensaio de 1859 do crtico Dobrolibov, tornou-se sinnimo de inrcia.

DISCOS
THEATRE IS EVIL, AMANDA PALMER & THE GRAND THEFT ORCHESTRA (DECK)
 Se a msica de Lady Gaga correspondesse ao seu visual exuberante, talvez ela soasse como Amanda Palmer. Ex-vocalista do Dresden Dolls, grupo que misturava punk rock com msica de cabar, Amanda tem um pezinho na provocao barata  j comps uma msica chamada Oasis, que fala de uma f do grupo ingls que  estuprada numa festa. Suas muitas excentricidades, porm, so rebatidas por uma musicalidade de categoria, na qual se percebe um amplo leque de influncias, de David Bowie ao grupo new wave The Knack. Para bancar a produo de Theatre Is Evil, orada em 100.000 dlares, ela pediu ajuda aos fs, que responderam com entusiasmo: as colaboraes passaram do milho de dlares. Em agradecimento, Amanda Palmer lanou um belssimo CD de quinze faixas, com passagens pelo pop e pela msica experimental. Uma curiosidade: a cano Trout Heart Replica foi inspirada em uma visita que Amanda e seu marido, o escritor e criador de quadrinhos Neil Gaiman, fizeram a uma fazenda de trutas. A cantora comoveu-se com a luta dos pobres peixinhos para escapar da pesca.

SWING LO MAGELLAN, DIRTY PROJECTORS (DECK)
 Embora seja formado por msicos de primeira linha, o Dirty Projectors , na verdade, o projeto de uma pessoa s: o vocalista e guitarrista Dave Longstreth, que formou o grupo em 2002. Agregando desde elementos do rock independente  msica erudita americana do sculo XX (Longstreth tambm criou um conjunto de cmara chamado Sociedade Orquestral para Preservao da Orquestra), o grupo  francamente experimental. Sua permanente inquietude angariou admiradores moderninhos como David Byrne e Bjrk. Longstreth classificou Swing Lo Magellan, sexto trabalho do Dirty Projectors, como um lbum de canes. De fato, h momentos deliciosamente pop, como as harmonias vocais femininas de Gun Has No Trigger, o primeiro single do lbum. Irresponsible Tune  outra cano com elaborados arranjos de voz, desta vez masculinos, enquanto a cantora Amber Coffman e seu fiapo de voz do charme  luminosa The Socialites. Mas, apesar de este ser um trabalho mais acessvel, o esprito vanguardista de Longstreth segue presente nas eletronices que povoam as faixas restantes.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
3. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
4. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
5. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA
6. A Sombra da Serpente  Rick Riordan. INTRNSECA 
7. Um Porto Seguro  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
8. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
9. A Tormenta de Espadas  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
10.  A Fria dos Reis  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
3. Carcereiros  Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS
4. Coraes Descontrolados  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR
5. Dilogos Impossveis  Luis Fernando Verissimo. OBJETIVA 
6. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
7. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL
8. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 
9. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kenin Maurer. PARALELA 
10. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
2. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO
3. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Marins. GENTE
4. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD 
5. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
6. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
7. Transforme Seus Sonhos em Vida  Eduardo Shinyashiki. GENTE 
8. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
9. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
10. Feridas da Alma  Padre Reginaldo Manzotti


7. J.R. GUZZO  O RESTO  O RESTO
     Nada mais natural que depois de uma eleio para prefeitos e vereadores, como a de agora, ou para governadores, deputados e presidente, como se far daqui a dois anos, cada um diga o que bem entender sobre o verdadeiro significado do que aconteceu, com os costumeiros clculos para estabelecer quem ganhou e quem perdeu; deveria ser uma tarefa bem simples concluir que ganhou quem teve mais votos e perdeu quem teve menos, mas esse debate  um velho hbito nacional, e no vai mudar. Outra coisa, muito diferente,  acreditar naquilo que se diz. Trata-se de uma liberdade de duas mos: cada um fala o que quiser e, em compensao, cada um entende o que quiser daquilo que foi falado. Na recm-terminada eleio municipal de 2012, como de costume, no ficou claro, nem vai ficar, quanta ateno o pblico deveria realmente prestar a toda essa conversa que est ouvindo agora.  certo, desde j, que est ouvindo coisas que no fazem nenhum sentido  e, por isso mesmo, provavelmente no perderia nada se prestasse o mnimo de ateno a elas.
     A frmula  sempre a mesma. Cientistas polticos, pescados em alguma universidade ou instituto superior disso ou daquilo, aparecem de repente nos meios de comunicao para explicar, depois de encerrada a batalha, como, por que e por quem ela foi ganha ou perdida.  uma estranha cincia, essa, que, em vez de lidar com fatos comprovados, lida com opinies. Na anatomia, por exemplo, est dito que o homem tem dois pulmes; no pode haver outra opinio quanto a isso. Na cincia poltica pode. Juntam-se a esses cientistas os polticos propriamente ditos, os comentaristas da imprensa e mais uma poro de gente, e de tudo o que dizem resulta uma salada que a mdia serve ao pblico como se estivesse transmitindo ao vivo o Sermo da Montanha. Uma demonstrao clara desse tumulto mental  a concluso, por parte de muitas cabeas coroadas do mundo poltico, de que a vitria pessoal do ex-presidente Lula na eleio de So Paulo, onde levou para a prefeitura uma nulidade eleitoral que ningum conhecia trs meses atrs, apagou as condenaes que seu partido e seu governo receberam no julgamento do mensalo. Est na cara que o resultado no apagou nem acendeu nada, pois eleio no  feita para separar o certo do errado, nem para decidir se houve ou no houve um crime  serve, unicamente, para escolher quem vai governar. Dizer o que est certo ou errado  tarefa exclusiva da Justia; no caso, o STF j decidiu que foi cometida no governo Lula uma catarata de crimes, sobretudo de corrupo. No h, simplesmente, como mudar isso. A Justia pode funcionar muito mal no Brasil, mas  o nico meio que se conhece para resolver quem tem razo  assim como eleio  o nico meio que se conhece para escolher governos.
     No foi o povo brasileiro, alm disso, quem absolveu o PT  ou concorda quando o partido diz que seus chefes so prisioneiros polticos condenados por um tribunal de exceo, e no por corromperem e serem corrompidos.  curioso, alis, como os polticos deste pas ficam  vontade para falar em povo brasileiro. O PT ganhou esta ltima eleio em 10% dos municpios. E os eleitores dos outros 90%, com 80% do eleitorado, que povo seriam? Esquims?  dado como um fato cientfico, tambm, que Lula foi o maior ganhador da eleio, por causa do resultado em So Paulo. Por que isso? Porque ele prprio, o PT e outros tantos vinham dizendo, desde o comeo, que s o municpio de So Paulo, com pouco mais de 5% dos eleitores brasileiros, importava: o resto era apenas o resto. De tanto repetirem isso, virou verdade. Mas  falso: no d para dizer que no houve eleio em Salvador ou Fortaleza, no Recife, em Belo Horizonte e Porto Alegre, onde o PT apresentou candidatos com pleno apoio de Lula e da presidente Dilma Rousseff, e perdeu em todas  nas trs ltimas, inclusive, no sobreviveu nem ao primeiro turno. No mapa mental de Lula  como se nenhuma dessas cidades estivesse em territrio brasileiro; o Brasil, em sua geografia, comea e acaba em So Paulo. Cinco das principais capitais brasileiras, por esse modo de medir as coisas, so tratadas como se ficassem em Marte.
     O que Lula e seu partido fizeram foi construir a ideia de que So Paulo, sozinha, vale mais que todo o restante do Brasil somado  e nisso, realmente, tiveram sucesso, pois nove entre dez profissionais da poltica dizem mais ou menos a mesma coisa. Assim , se lhes parece. Mas o pblico no tem a menor obrigao de acreditar no que esto dizendo.


